sábado, 23 de julho de 2016

Símbolos Ressignificados: Ankh, a "cruz egípcia"

“Símbolos ressignificados” é uma parte do nosso blog que se dedica a fazer uma apanhando de curiosidades sobre os mais diversos símbolos da cultura humana que foram, ao longo dos anos, recebendo novos significados no estilo e cultura góticos.

Representação do Ankh

Esta semana, falaremos sobre o Ankh.

Ankh é símbolo que surgiu na Quinta Dinastia de Faraós do Egito Antigo, encontrado em diversos templos, pinturas, esculturas e papiros egípcios das mais diferentes formas, embora seja quase certo que seu significado original seja como símbolo que representa a vida. Não muito raro, está presente em papiros e esculturas sendo segurado pelos mais diversos deuses egípcios e faraós, como podemos ver em algumas imagens abaixo.

Julgamento dos mortos pelo deus Osíris
Escultura do Faraó Senusret I (século X a. C.)

A forma do Ankh costuma receber as seguintes interpretações:

* A alça oval sugere um cordão entrelaçado com as duas pontas opostas que significam os princípios feminino e masculino, fundamentais para a criação da vida.

     *  Pode também representar a união entre as divindades Osíris e Ísis, que proporcionava a cheia periódica do Nilo, fundamental para a sobrevivência dos egípcios. Desta forma, o ciclo previsível e inalterável das águas era atribuído ao conceito de reencarnação, uma das principais características da crença egípcia. A linha vertical que desce exatamente do centro do laço, é o ponto de intersecção dos polos, e representa o fruto da união entre os opostos.

Com o tempo, esses significados foram modificados por culturas posteriores ao período dos Faraós. No século III, os egípcios convertidos ao cristianismo adotaram o ankh como um símbolo que passou a ser chamado de cruz cóptica, tendo em vista a similaridade entre ankh e a cruz cristã. Essa similaridade ainda lhe renderia apelidos como cruz egípcia, cruz ansata (do latim ansa, que significa asa) e cruz da vida.

As descobertas arqueológicas egípcias nos século XVIII e XIX fizeram com que o símbolo ganhasse novos significados e finalidades no Ocidente desde então. Ainda no século XIX, diversos grupos ocultistas adotaram o ankh. Na década de 1960, seria adotado por hippies e grupos esotéricos. 

O símbolo se popularizou no Brasil no início dos anos 70, quando Raul Seixas, Paulo Coelho, entre outros criaram a Sociedade Alternativa. O selo desta sociedade possuía um ankh adaptado com dois degraus na haste inferior, simbolizando os Degraus da Iniciação, ou a chave que abre todas as portas. Em outra interpretação, representa o laço da sandália do peregrino, ou seja, aquele que quer caminhar, aprender e evoluir.
Selo da Sociedade Alternativa
Somente muito recentemente, ela ganhou associações com o vampirismo e foi agregada ao estilo gótico quando foi lançado o filme The Hunger - Fome de Viver (1983), em que David Bowie e Catherine Deneuve protagonizam vampiros em busca de sangue, pois há uma cena em que a dupla, usando ankhs egípcios, está à espreita de suas presas numa casa noturna ao som de Bela Lugosi is Dead, da banda Bauhaus. Desta forma, associou-se o ankh ao vampirismo e ambos ao Bauhaus, fazendo o símbolo se tornar parte da subcultura gótica.

Outra referência bastante importante do ankh na cultura pop é seu uso pela personagem Death, da HQ Sandman, de Neil Gaiman. Personagem esta que personifica a Morte e apresenta uma aparência bastante gótica como podem ver na imagem abaixo.

Death, da HQ Sandman

Atualmente, é bastante utilizada como adereço estético por meio de correntes e como base para as mais diversas representações artísticas e tatuagens. Abaixo uma lista de outros usos atuais:
  • É utilizado por bruxos contemporâneos em rituais que envolvem saúde, fertilidade e divinação; ou como um amuleto protetor de quem o carrega.
  • Foi incluído na simbologia da Ordem Rosa-Cruz, representando a união entre o reino do céu e a terra
  • É usado numa religião neopagã conhecida como kemetismo, que se baseia nas crenças religiosas do Egito Antigo.
Considerando tudo o que foi dito neste texto sobre a simbologia do ankh, é um equívoco atribuir-lhe significados que o associem à magia negra e ao satanismo.

Fontes:

Perfil do Escritor: Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo



Quando meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quro que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Trecho do poema Lembrança de Morrer, de Álvares de Azevedo.







E assim estreamos o tópico Perfil do Escritor, no qual apresentaremos alguns autores relacionados com a literatura e cultura gótica no Brasil e no mundo! E começaremos pelo precursor deste tipo de literatura no Brasil.

Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em 1832, na cidade de São Paulo, mais exatamente na casa de sua avô situado à Rua Quintino Bocaiúva, próxima à Faculdade de Direito. Aos dois anos de idade, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, cidade onde sofreria com a morte do irmão em 1835 e seria matriculado no colégio Stoll, com nove anos de idade, sendo um aluno extremamente elogiado em todas as disciplinas escolares, exceto em uma: educação física. Em 1845, ingressa no internato Pedro II, conhecendo ali o professor de filosofia Domingos José Gonçalves de Magalhães (o mesmo que introduziu a poesia romântica no Brasil), que muito contribuiu para sua formação intelectual.

Faculdade de Direito de São Paulo no século XIX 
Em 1º de março de 1848, com dezessete anos, Álvares matricula-se na Faculdade de Direito de São Paulo. Neste ponto, sua vida intelectual e social se adensa, fazendo amigos como Bernardo Guimarães (futuro autor de A Escrava Isaura), Aureliano Lessa, entre outros nos quais manteve contato numa república de estudantes localizada na Chácara dos Ingleses. Foi nesta época também que toda sua obra conhecida começou a ser escrita. Primeiramente, escreveu O conde de Lopo, poema narrativo que somente foi publicado em 1886, muitos anos após sua morte. Traduziu obras como Parisina, de Lord Byron e o quinto ato de Otelo, de Shakespeare e participou da fundação da sociedade Ensaio Filosófico juntamente com a criação de revista homônima. Em 1850, planeja a criação de uma jornal literário que teria o nome de Crepúsculo ou Estrela, projeto que nunca foi adiante e publica a peça e teatral Macário.
Nos quatro anos em que cursou Direito, Álvares se dedicou aos livros e aos poemas até adoecer de tuberculose e de um tumor possivelmente agravados após sofrer uma queda do cavalo num passeio pelo Rio de Janeiro, em março de 1952. O poeta é operado, mas não resiste, falecendo em 25 de abril do mesmo ano, durante o domingo de páscoa. Em seu enterro, o escritor Joaquim Manuel de Macedo leria o poema  Se eu morresse amanhã, que Álvares de Azevedo escrevera poucos dias antes de seu falecimento, no qual podemos notar as esperanças do jovem prodígio se esvaindo.

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva!
Acorde a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morre amanhã!

A maior parte da obra de Álvares de Azevedo é publicada postumamente. Lira dos Vinte anos e Poesias Diversas são publicadas em 1853 e a narrativa Noite na Taverna, em 1855.
Atualmente, muitos brasileiros têm o contato inicial com sua obra durante as aulas de literatura do Ensino Médio, quando se ensina o período literário conhecido como Ultrarromantismo ou 2ª fase do romantismo no Brasil, período em que nossos poetas foram fortemente influenciados pelas poesias de Lord Byron (1788-1824) e Alfred de Musset (1810-1857). Ou seja, neste período, além de outras características típicas do romantismo, há uma forte carga de solidão, morbidez, idealização do amor e  saudosismo. Segundo Mario de Andrade, ensaísta e escritor modernista, os ultrarromânticos temiam a consumação da relação amorosa, explicando a constante menção ao ideal feminino com figuras assexuadas e idealizadas como anjo, virgem, criança, entre outros. Podemos ler a citação a essas figuras idealizadas na primeira parte de Lira dos Vinte Anos.

Não chorem!que não morreu!
Era um anjinho do céu.
Que um outro anjinho chamou!
Era uma luz peregrina,
Era uma estrela divina
Que ao firmamento voou!

Pobre criança! dormia:
A beleza reluzia
No carmim da face dela!
Tinha uns olhinhos que choravam,
Tinha uns risos que encantavam!
Ai meu Deus! era tão bela!
(...)
Trecho de Anjinho, de Álvares de Azevedo.

Neste excerto podemos ver também o uso de letras minúsculas em início de frase no primeiro, sétimo e décimo segundo versos e o uso de versos livres, indicando a liberdade com que muitos poetas desse período compunham seus poemas numa ideia de liberdade criativa do ser humano em que o conteúdo era mais importante que a forma, sendo comuns deslizes gramaticais.
Em contrapartida às figuras idealizadas e ao amor romântico, Álvares ironiza ambos nos poemas que compõem a segunda parte da mesma Lira, como no poema É ela!É ela!É ela!É ela!

É ela! é ela! - murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou - é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura -
a minha lavadeira na janela
(...)
Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!
(...)

A Lira dos Vinte anos foi o único livro de poesias de Álvares organizou para publicação. Dividiu os poemas em duas partes, cada um com seu prefácio: a primeira, que nas palavras dele São os primeiros cantos de um pobre poeta, e a segunda, na qual dissipa-se o mundo visionário e platônico.
Em resumo, na primeira parte temos poesias numa temática mais sentimental, com receio perante o amor carnal e fascínio pela morte; na segunda parte temos poemas de amor romântico e sarcástico.

Ainda no prefácio da segunda parte, temos a explicação para essa divisão:

É que a unidade desse livro funda-se na binômia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.

Vinte anos após a primeira publicação de Lira, o crítico Joaquim Noberto incluiu uma terceira parte ao livro com poema que seriam uma continuação da primeira parte. Outros poemas foram reunidos no livro intitulado Poemas diversos; Os poemas longos Poema do Frade e O Conde Lopo são publicados separadamente dos outros livros de poesia.

Álvares escreveu duas narrativas: Noite na Taverna e  Fra Gondicario, sendo que a primeira é mais conhecida  e bastante lembrada por alguns como o primeiro livro brasileiro inserido no âmbito da literatura gótica. Não vamos nos delongar muito sobre esse livro agora, pois futuramente pretendemos escrever uma resenha sobre ele. No entanto, para terem uma base, Noite na Taverna é uma narrativa em que cinco jovens europeus bêbados se reúnem em uma taverna e contam suas histórias sobre supostas experiências com cadáveres, canibalismo, o amor idealizado se contrapondo ao real e assassinatos passionais em ambientes que constantemente evocam à morte e à solidão, sendo que uma dessas histórias se relaciona com o final de toda a narrativa. 

No teatro, Álvares publicou Macário, peça em que o personagem homônimo tem uma discussão bastante interessante sobre as concepções de amor com seu amigo Penseroso. Curiosamente, é uma peça que, em alguns momentos, se remete ironicamente à pacata cidade de São Paulo de meados do século XIX, cidade na qual o poeta passou os anos na Faculdade de Direito.

Mosteiro da Luz na segunda metade do século XIX.
Por fim, como incentivo a lerem as obras desse autor, saibam que suas obras são de Domínio Público e podem ser encontradas na internet.

Herma de Álvares de Azevedo em frente da Faculdade de Direito (atualmente, parte da USP)
Fontes:

Azevedo, Álvares. Noite na Taverna e Lira dos Vinte anos. EDELBRA: Erechim-RS


O que é Cultura Gótica?

Quando se fala no termo "gótico" (deixando de lado sua origem histórica dos godos, primeiro povo germânico a se tornar adepto do cristianismo), há uma gigantesca controvérsia.

Muitos  não conhecem o sentido maior por trás das roupas pretas, melancolia e fixação por figuras muitas vezes mórbidas. A impressão de que os amantes dessa subcultura seriam extremamente depressivos e conformados se dá por sua atração pelo lado mais obscuro das coisas, sempre as transformando em inspiração e revelando um lado belo  através das diversas expressões artísticas.
A arquitetura gótica revela muito desses sentimentos mal compreendidos: as catedrais construídas nesse estilo, por exemplo, são de uma proporção que faz com que seus visitantes se sintam pequenos e amedrontados.

Interior da Catedral da Sé, São Paulo/SP.
É exatamente essa a essência gótica, ter a plena consciência de que se é muito pequeno diante da grandeza do mundo e de outras forças que (possivelmente) estão acima de nós e reconhecer que por sermos efêmeros e minúsculos estamos todos fadados a morte, portanto, devemos naturalizá-la e não temê-la como se é feito na sociedade. 
Pieter Claesz (1597 - 1661). Natureza Morta com Crânio, 1628.
Esse tema inclusive é muito recorrente nas expressões artísticas, mesclando o temor as formas de apreciação e principalmente à poesia; embora seja presente uma melancolia, ela se mostra necessária ao passo que tudo deve ser sentido e feito com intensidade, já que a passagem por esse mundo é breve e se torna indispensável utilizar todos os sentidos para aproveitá-lo.
Essas sensações e seus resquícios estão presentes na poesia, especialmente no movimento de ultrarromantismo que tem forte influência gótica; nas pinturas e, atualmente temos seus resquícios no cinema, quadrinhos e literaturas em geral.

O blog "cultura gótica" busca mostrar como essas influências estão por toda parte, mesmo nos pequenos detalhes, apresentar parte desse mundo e suas curiosidades, sempre incentivando a beleza de todas as suas formas.